Compartilhe: WhatsApp Facebook
Política

Vozes Femininas — Lena Castello Branco: historiadora, cronista e intelectual das humanidades

Elizabeth Abreu Caldeira Natural de Parnaíba (PI), Lena Castello Branco Ferreira de Freitas nasceu em 1929. Fixou-se em Goiânia no final da década de 1940, consolidando uma trajetória marcada pela docência, pela...

Elizabeth Abreu Caldeira
Natural de Parnaíba (PI), Lena Castello Branco Ferreira de Freitas nasceu em 1929. Fixou-se em Goiânia no final da década de 1940, consolidando uma trajetória marcada pela docência, pela pesquisa histórica e pela reflexão literária.
Doutora em História e professora titular da Universidade Federal de Goiás, destacou-se não apenas como historiadora e pesquisadora, mas como intelectual orgânica no sentido gramsciano (Gramsci, 2001), atuando em múltiplas frentes institucionais e culturais.
Exerceu cargos de relevância acadêmica e administrativa, como a Direção do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFG; a assessoria do reitor da mesma universidade; a atuação junto ao Ministério da Cultura e ao Iphan; coordenando o Projeto Alcântara (MA); além de ter sido Diretora-Geral do INEP/MEC.
Sua inserção em instituições culturais e científicas foi igualmente expressiva: membro da Academia Goiana de Letras; da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás; do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica; da Sociedade Brasileira de Educação Comparada (da qual foi sócia-fundadora); da Sociedade Brasileira de História da Medicina (também, sócia-fundadora), além de integrar a Associação Nacional de Professores Universitários de História.
Sua obra acadêmica e literária articula História, Literatura e Memória, revelando um olhar interdisciplinar que, como observa Ercília Macedo-Eckel (2010), inscreve-se na tradição da escrita que “mescla a narrativa histórica com a literária, explorando a ficção sem perder o rigor da investigação” (p. 87).
Tal perspectiva encontra ressonância na concepção de Paul Ricoeur (2007), para quem a memória e a narrativa são dimensões indissociáveis da experiência histórica.
Entre suas publicações, destacam-se “Arraial e Coronel — Dois Estudos de História Social” (1979), premiado com o Clio de História Social; e “Poder e Paixão — A Saga dos Caiado”, que recebeu menção honrosa do prêmio Pedro Calmon do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
A obra acadêmica e literária da doutora em História Lena Castello Branco articula história, literatura e memória, revelando um olhar interdisciplinar que se inscreve na tradição da escrita que “mescla a narrativa histórica com a literária”
Segundo o doutor em história Nasr Fayad Chaul (2015), o estudo sobre os Caiado, desenvolvido ao longo de mais de uma década, “recupera não apenas a trajetória de uma família, mas ilumina dimensões fundamentais da vida política, cultural e social de Goiás, assegurando a abertura para a memória do outro” (p.
134). Tal afirmação dialoga diretamente com Halbwachs (2006), ao tratar da memória coletiva como espaço de reconstrução social e simbólica.
O livro de Lena Castello Branco é uma obra-prima da historiografia brasileira | Foto: Jornal Opção
A cronista do cotidiano
Sua atuação foi igualmente reconhecida em vida: recebeu o título de Cidadã Goiana (2015) e seu nome figura em antologias e dicionários biobibliográficos nacionais.
Em 2018, estreou como cronista em “O Popular”, inaugurando sua colaboração com a crônica “Recomeçando”, em que reflete sobre o ato de escrever e sobre a função da crônica como gênero híbrido, “alimentando-se em parte da verdade, em parte da imaginação e, outro tanto, da emoção”.
Ao fazê-lo, retomava uma linhagem de cronistas brasileiros que, como Antonio Candido (1992) assinala, dão voz ao cotidiano, preservando fragmentos da experiência coletiva. O impacto de sua trajetória foi sintetizado por diferentes críticos e intelectuais. Dentre eles, destacamos: Ercília Macedo-Eckel (2010) afirmou que Lena Castello Branco transita com naturalidade entre a História e a Literatura.
Afiança que em sua obra há o compromisso com a interdisciplinaridade de forma fecunda. Já Nasr Fayad Chaul (2015), professor e doutor em História, pontua a consistência que fundamenta suas pesquisas. Destaca a importância de seu trabalho para que a história política e social de Goiás seja compreendida.
Quanto ao enfoque da construção e da preservação da memória goiana, Lincoln Tejota (2023) acrescenta a importância de sua “atuação como guardiã de tradições e processos históricos regionais”. Por mais de seis décadas, em efervescente criação e pesquisas, Lena Castello Branco construiu um legado que ultrapassa o domínio da historiografia.
Como cronista, inscreveu-se no espaço da sensibilidade e da memória pessoal e, como historiadora, deu rigor e densidade à compreensão da história regional e nacional. Sua obra, ao mesmo tempo, científica e literária, confirma a observação de Michel de Certeau (1982): “A escrita da história é sempre também uma escrita do tempo vivido”.
Doutora em História, Lena Castello Branco Ferreira de Freitas faleceu em 23 de outubro de 2023. Deixou uma contribuição duradoura à história, à literatura e à cultura goiana e brasileira. Heranças perenes que hão de ultrapassar a cal de nossos dias, nossa contemporaneidade. Publicações de Lena Castello Branco
1
“Arraial e Coronel — Dois Estudos de História Social” (1978). 2
“Uma Família na História” (1967).
3
“A Educação no Brasil” (1981). 4
 “Perspectiva Histórico-Cultural do Idoso no Brasil no Século XXI” (1996). 5
“Saúde e Doença em Goiás — A Medicina Possível: Contribuição à História da Medicina em Goiás” (1999). 6
“Goiânia: Locus Privilegiado de Saúde” (1999). 7
“Mulheres: sombras tênues da história” (1998). 8
“Médicos Europeus na Província de Goiás” (2000). 9
 “Poder e Paixão — A Saga dos Caiado”, vol. 1 e vol.
2 (2009). 10
 “Novilha de Raça e Outros Contos” (2009). 11
“Antes do Pôr do Sol — Entre a Ficção e a Realidade” (2019). Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.
O post Vozes Femininas — Lena Castello Branco: historiadora, cronista e intelectual das humanidades apareceu primeiro em Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Marielle SouzaJornalista