Adriana Marinelli
Goiânia – Enquanto grande parte do mundo ainda debate se a inteligência artificial (IA) vai substituir empregos, organizações dos mais variados segmentos já superaram essa etapa da discussão. Para elas, os esforços estão concentrados no que fazer com o tempo que a tecnologia está devolvendo à rotina.
É o caso da Uniodonto Goiânia, que optou por transferir às máquinas parte das tarefas repetitivas e operacionais do dia a dia, liberando seus colaboradores para se dedicarem ao que exige análise, tomada de decisão e, principalmente, relação humana.
Desde maio de 2025, a cooperativa que reúne profissionais da área odontológica passou a incorporar, de forma estruturada, soluções baseadas em inteligência artificial à dinâmica de trabalho.
O movimento começou pelo atendimento ao cliente, com destaque para o e-Vendas e o e-Commerce, e avançou para a organização de informações, análise de dados e, em seguida, para a produção de relatórios. Em algumas dessas atividades, a redução no tempo de execução é estimada entre 40% e 60%.
“Há relatórios que antes poderiam exigir de 10 a 15 horas de trabalho e que, com o apoio da tecnologia, passaram a ser preparados em poucos minutos”, destaca Fábio Prudente, presidente da Uniodonto Goiânia, em entrevista à reportagem do jornal A Redação.
No caso do atendimento, a IA é responsável pelo primeiro contato com o cliente. Quando uma pessoa aciona a Uniodonto Goiânia pelo WhatsApp, Facebook, Chat, Telegram, Google Chat e Apple Business Chat, a IA solicita e armazena os dados como nome, CPF, e-mail, telefone e o pedido do cliente.
Depois disso, direciona para a equipe interna da cooperativa resolver a demanda que motivou o contato.
No dia a dia da cooperativa, a presença da IA se materializa em diferentes frentes e passa a integrar processos que, até então, dependiam essencialmente da atuação humana. Segundo Prudente, o departamento comercial é outra área contemplada.
“Cito ainda suporte para análise de planilhas, consulta de documentos e normas, além da preparação de respostas para as áreas de gestão”, resume. Cada ferramenta desempenha uma função específica, de acordo com a natureza da tarefa.
“O ChatGPT, por exemplo, auxilia na organização e redação de orientações para as áreas de gestão da cooperativa. O NotebookLM facilita a pesquisa em bases selecionadas.
O Cursor apoia a revisão e o desenvolvimento de códigos, enquanto o HeyGen transforma conteúdos institucionais em vídeos de comunicação e treinamentos internos”, complementa o presidente.
Fundada em 1983, a Uniodonto Goiânia reúne mais de 166 mil beneficiários e mais de 490 empresas contratantes, atendidos por uma estrutura que conta com mais de 430 cirurgiões-dentistas cooperados, além de clínicas radiológicas conveniadas e uma rede credenciada presente em cidades do interior de Goiás.
É nesse modelo de atendimento e gestão que a inteligência artificial vem conquistando espaço de maneira gradual, como ferramenta de apoio à operação.
“Sempre com validação humana, atenção à privacidade e à segurança da informação”, enfatiza Prudente, ao sinalizar que a redução das horas dedicadas a planilhas e documentos representa, sobretudo, a possibilidade de devolver tempo às atividades que dependem de análise, discernimento e atuação de um profissional qualificado.
Alcançar o patamar em que os resultados começam a ser vistos, no entanto, não acontece da noite para o dia. É preciso apostar em investimento, planejamento e adaptação.
Embora os custos iniciais da implementação de IA variem conforme a complexidade dos sistemas e o volume de dados envolvidos, os benefícios de longo prazo tendem a compensar os recursos empregados.
A adoção da tecnologia envolve despesas com aquisição de softwares, contratação de especialistas e adaptação dos sistemas produtivos, mas pode gerar retornos significativos ao reduzir falhas e otimizar processos.
Em termos simples, a IA reúne um conjunto de tecnologias que permite a computadores e programas simular capacidades associadas à inteligência humana. O cenário ideal é que, assim como no caso da Uniodonto, esse processo seja acompanhado pela supervisão de quem está do outro lado da tela.
Na área de TI, dois colaboradores da cooperativa já utilizam intensamente o Cursor IA Pro no desenvolvimento e na análise de aplicativos para iOS e Android, ampliando produtividade, escala e assertividade.
“A validação das informações e a responsabilidade pelas decisões permanecem com os profissionais da Uniodonto Goiânia”, destaca o presidente, ao enfatizar os limites da atuação da tecnologia. Prudente também faz questão de ressaltar os ganhos para quem depende da prestação de serviços.
“Para cooperados, beneficiários e demais públicos, a IA contribui para orientações mais rápidas, claras e padronizadas.”
É esse equilíbrio de incorporar a tecnologia para acelerar processos, sem retirar as pessoas do centro das relações, que a cooperativa pretende aprofundar nos próximos anos, de maneira gradual e responsável. A estratégia inclui projetos como assistentes virtuais internos e a integração com bases documentais.
“A visão da Uniodonto Goiânia é de que a IA deve complementar o trabalho das pessoas e não substituir o relacionamento humano. Ao organizar informações e agilizar processos, a tecnologia libera mais tempo para ouvir, orientar, acolher e resolver situações que exigem empatia”, diz.
“O objetivo é ampliar os resultados, mantendo a responsabilidade profissional, a proteção das informações e o compromisso com um atendimento ético, próximo e acolhedor”, conclui. Unir eficiência tecnológica e valorização das relações humanas, por sua vez, não é uma particularidade da cooperativa com sede em Goiânia.
A mesma direção vem sendo observada por organizações da área da saúde no Brasil e no mundo.
De acordo com relatório Scaling Artificial Intelligence in Health, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em março de 2026, a inteligência artificial já é utilizada em atividades administrativas de saúde em 100% dos países membros da organização.
Quando se observa, porém, a capacidade de ampliar essas aplicações para todo o sistema, o cenário muda. É que apenas 10% dos países conseguiram escalar, em nível nacional, o uso da tecnologia em aplicações de imagem médica.
Sobre a incorporação da IA, a própria OCDE aponta obstáculos que vão da fragmentação e da organização dos dados às incertezas regulatórias, passando por falhas de governança e lacunas na capacitação dos profissionais. Ou seja, a tecnologia pode estar disponível, mas sua utilização consistente depende de uma estrutura capaz de sustentá-la.
O interesse do setor, de todo modo, já ultrapassou a fase da simples curiosidade.
Pesquisa da McKinsey, realizada no último trimestre de 2024 com 150 líderes de organizações de saúde nos Estados Unidos, mostrou que 85% dos entrevistados estavam, já naquele momento, explorando ou já tinham adotado capacidades de inteligência artificial generativa.
Entre os campos com maior potencial apontado pelos participantes estavam justamente a eficiência administrativa e a produtividade clínica, duas áreas em que a tecnologia tende a assumir tarefas de apoio e processamento de informações.
Para a coordenadora de Inovação do Sistema OCB Goiás, Carla Vinhadelli Campos, a IA pode atuar sobre uma série de gargalos operacionais que consomem tempo e recursos das organizações.
“A automatização de tarefas e o processamento de grandes volumes de informação podem trazer ganhos de produtividade e redução de tempo, especialmente em atividades como auditoria, autorização, atendimento e análise de informações”, afirma.
Mais do que acelerar procedimentos isolados, a expectativa é que o uso estruturado dos dados também ajude a reduzir retrabalho e desperdícios, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade das organizações de identificar inconsistências, padrões, riscos e oportunidades.
Na avaliação da representante do Sistema OCB Goiás, esses ganhos podem alcançar tanto a gestão quanto a atividade assistencial, desde que a tecnologia seja utilizada como ferramenta de apoio aos profissionais.
“A automação de tarefas operacionais pode permitir que os profissionais concentrem seus esforços em atividades de maior valor e na relação com o paciente”, reforça Carla.
A transformação citada por Carla é evidenciada por pesquisas feitas com equipes que atuam na área da Saude.
O Future Health Index 2026, da Philips, realizado entre fevereiro e abril deste ano com mais de 2 mil profissionais de saúde e mais de 20 mil pacientes em dez países, entre eles o Brasil, estimou que a inteligência artificial já economiza aos profissionais de saúde o equivalente a mais de 16 dias de trabalho por ano.
Metade dos profissionais ouvidos afirmou que a tecnologia aumentou sua capacidade de atender pacientes, enquanto 39% relataram que a IA identificou ou ajudou a prevenir possíveis erros médicos pelo menos três vezes nos três meses anteriores à pesquisa.
Os números ajudam a dimensionar o potencial da tecnologia, mas também reforçam que produtividade, por si só, não resolve a equação. A mesma pesquisa revelou que 70% dos profissionais consideram o treinamento em IA inadequado, inconsistente ou inexistente.
O dado sugere que a velocidade com que as ferramentas chegam ao ambiente de trabalho nem sempre é acompanhada pelo preparo necessário para utilizá-las, supervisioná-las e compreender seus limites.
Em Goiás, segundo Carla Vinhadelli Campos, esse é um dos pontos que precisam ser enfrentados para que as experiências pontuais possam se transformar em processos mais consolidados.
“Alguns desafios são muito claros, como a qualidade e a organização dos dados, a segurança e a proteção dessas informações, a mudança cultural e a qualificação das pessoas”, enumera.
A lista ainda inclui dois fatores diretamente relacionados à confiança na tecnologia, conforme enfatiza a representante do Sistema OCB/GO, como a necessidade de supervisão humana e a capacidade de avaliar a confiabilidade das respostas produzidas pelos sistemas.
“Também entram nessa equação o investimento e a infraestrutura necessários para implementar essas soluções de forma adequada”, acrescenta a coordenadora.No cooperativismo goiano, esse processo ainda não está traduzido em um indicador público específico capaz de mostrar quantas cooperativas de saúde já utilizam inteligência artificial ou em que grau a tecnologia está incorporada às operações.
A OCB Goiás acompanha a evolução do tema por meio de iniciativas de inovação, diagnósticos de transformação digital e projetos-piloto. De acordo com Carla Vinhadelli, no entanto, o que se mostra inquestionável é o avanço do interesse das cooperativas pela adoção da IA.
Na Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas de Goiás (Coopanest-GO), por exemplo, a inteligência artificial vem sendo incorporada principalmente a processos que, pela quantidade de informações e etapas envolvidas, tradicionalmente exigiam uma extensa rotina de conferências, acessos a sistemas e alimentação de planilhas.
Pioneira no cooperativismo médico em anestesiologia no Brasil, a Coopanest-GO teve origem em 1974, quando 38 médicos anestesiologistas fundaram a então Cooperativa dos Anestesiologistas de Goiânia (Coag). Com a ampliação da atuação para todo o Estado, a instituição passou a adotar, em 1989, o nome atual.
Hoje, reúne 609 cooperados e conta com 48 colaboradores, atuando na prestação de serviços médicos de anestesiologia em Goiás.
Foi em uma das áreas ligadas à conferência de informações financeiras que a cooperativa iniciou sua aproximação com a IA.
Segundo o gerente-geral da Coopanest-GO, Leandro Ferreira, a primeira aplicação esteve relacionada à auditoria e ao fechamento de contas, em um processo que exige o cruzamento de dados referentes aos pagamentos realizados pelos convênios.
“Atualmente, utilizamos diversas ferramentas muito conhecidas, como Claude, Gemini e DeepSeek, que estão todas em operação real, atuando diretamente na execução e automação de processos.”
A experiência, segundo o gerente-geral, não fica restrita a um único setor. A tecnologia passou a ocupar espaços em diferentes áreas da estrutura administrativa da cooperativa, alcançando desde a gestão de informações financeiras até atividades de suporte e comunicação.
“Cito aqui o faturamento de todas as produções médicas do Estado, auditorias, Recursos Humanos, gestão de convênios, comunicação, além do financeiro”, enumera Leandro ao apresentar as frentes que já contam com recursos de IA.
“Tudo que era feito através de clique, acesso a portais, rotinas e planilhas de Excel hoje foi embarcado para uso de inteligência artificial e automação através de algoritmo.”
A alteração da rotina já produziu resultados mensuráveis em algumas operações, de acordo com Leandro.
Um dos exemplos citados pela cooperativa envolve a validação de dados relacionados ao convênio Hapvida, atividade que anteriormente demandava duas pessoas durante 15 dias e que, com a nova estrutura, passou a ser realizada em cerca de cinco horas. “Tivemos avanço também na automatização da conciliação bancária.
Zero esforço humano. Cito ainda cruzamento de dados de auditoria e pagamentos, com taxa de sucesso de 95%, reduzindo em torno de 55% do esforço manual de cruzamento”, destaca o gerente geral ao citar que o resultado mais relevante não pode ser resumido apenas à quantidade de horas economizadas ou à velocidade dos processos.
A percepção da cooperativa é que o principal efeito da automação aparece na própria rotina de quem trabalha com essas atividades. “Sem dúvida, deixar o dia das pessoas que trabalham na cooperativa mais leve.”
Embora a inteligência artificial não seja, isoladamente, responsável pelo desempenho do setor cooperativista, a incorporação de tecnologias capazes de reduzir etapas, organizar grandes volumes de informações e ampliar a eficiência das operações se soma a outros fatores que vêm fortalecendo a atividade.
De acordo com o Anuário do Cooperativismo divulgado em 2026, com dados referentes a 2025, Goiás reúne 262 cooperativas e mais de 710 mil cooperados. O setor também responde por quase 19 mil empregos diretos e soma R$ 78,4 milhões em ativos.
Dentro desse universo, o ramo da Saúde ocupa um espaço relevante. São 40 cooperativas registradas no Sistema OCB/GO, reunindo mais de 12,4 mil cooperados e cerca de 4,4 mil pessoas empregadas.
Juntas, essas organizações concentram mais de R$ 2,1 bilhões em ativos e registraram R$ 124,8 milhões em sobras, segundo os dados do Anuário do Cooperativismo.
Os indicadores refletem a força de um modelo que reúne profissionais e consumidores em torno da oferta de serviços voltados à preservação, ao atendimento e à promoção da saúde humana.
No Brasil, o cooperativismo de saúde acumula mais de seis décadas de história e reúne cooperativas médicas, odontológicas e organizações formadas por profissionais classificados na área de atividades de atenção à saúde humana, além de cooperativas constituídas por pessoas que se unem em torno de planos de saúde.
A dimensão alcançada pelo ramo ultrapassa as fronteiras de Goiás.
O cooperativismo de saúde brasileiro está presente em mais de 90% do território nacional e é responsável pelo atendimento de mais de 27 milhões de pessoas, consolidando o país como uma referência mundial nesse modelo de organização.Em um segmento marcado por grandes volumes de dados, exigências regulatórias, operações financeiras complexas e pela necessidade permanente de conciliar eficiência com qualidade na prestação dos serviços, a busca por novas ferramentas ganha, naturalmente, cada vez mais espaço.
É nesse contexto que a inteligência artificial deixa de ser uma tendência debatida nos ambientes de inovação e passa a encontrar aplicações concretas na rotina administrativa e operacional. A incorporação dessas soluções, no entanto, não ocorre de maneira uniforme.
Enquanto algumas cooperativas, como a Uniodonto Goiânia e Coopanest-GO, já avançaram para a automação de processos, o uso de algoritmos e a integração de ferramentas de IA às suas operações, outras ainda estão nos primeiros estágios dessa transformação ou sequer iniciaram esse movimento.
Para reduzir essa distância e preparar as cooperativas para uma realidade em que a tecnologia tende a ocupar espaço crescente, o próprio Sistema OCB/GO tem promovido capacitações e iniciativas voltadas à inovação e à transformação digital.
“O Sistema OCB/GO realizou, por exemplo, o 4º Fórum de Tecnologia e Inovação, em 2025, dedicado a temas como Inteligência Artificial, IA generativa, cibersegurança, produtividade e transformação dos processos das cooperativas”, exemplifica a coordenadora de Inovação do Sistema OCB Goiás, Carla Vinhadelli Campos.
Em 2024, o Sistema OCB/GO também realizou o 1º Fórum de Presidentes e Dirigentes do Núcleo Cooperativo Central, colocando a IA diretamente na agenda das lideranças.
“O presidente Luís Alberto Pereira afirmou, na ocasião, que o objetivo era fazer com que os dirigentes entendessem o que existe em IA e como as cooperativas poderiam se beneficiar da tecnologia”, lembra Carla ao citar que, neste ano, foram realizadas duas turmas do Workshop IAs Generativas na Gestão, com conteúdos, que incluíram os mais variados temas de inovação.
Além disso, o Sistema OCB/GO lançou em 2026 o curso gratuito “Gestão de Projetos com IAs Generativas”, disponibilizado no Capacitacoop, com foco em aplicação prática da IA para planejamento, execução, monitoramento e encerramento de projetos. “No caso específico da saúde, há uma iniciativa particularmente interessante.
É que em junho de 2025, a Unimed Federação Centro Brasileira realizou em Goiânia a abertura da Semana de Inovação da Unimed, com discussões sobre IA e IoT (Internet das Coisas). O evento apresentou, entre outros temas, o uso de IA na radiologia, incluindo a tecnologia SwiftMR para reduzir o tempo dos exames de ressonância”, cita Carla.
A tendência apontada por quem acompanha de perto a transformação do cooperativismo goiano é de que o movimento ligado à inovação apenas se intensifique.
“A expectativa mais consistente com as evidências disponíveis é que a IA se torne cada vez mais presente nas cooperativas de Saúde, especialmente nos processos que envolvem grande volume de dados, atividades repetitivas, atendimento, auditoria, diagnóstico assistido, prevenção e personalização do cuidado”, finaliza a coordenadora de Inovação do Sistema OCB Goiás.
Fonte: A Redação
